29 Abril 2009

TOQUE

A síndrome do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOQUE) corrói o cérebro da classe média. Trata-se do mau gosto nos mínimos detalhes. Em tudo o que põem a mão há um toque de refinamento. Por exemplo: a mania de converter nomes mundanos em criações literárias de banca de jornal. Se a fulana tivesse nascido em berço esplêndido – ou de pais minimamente ilustrados no bom senso –, chamar-se-ia Carolina ou Adriana ou Mariana. Como nasceu no subúrbio da cidade grande, numa daquelas casas subtraídas de quintal, cujos portões invadem o passeio público para dar lugar à traseira do carro do ano, financiado em 36 vezes, atende pela graça de Caroline, Adriane, Mariane. A mãe, obesa e loira, excluídas as raízes dos cabelos, e o pai, tatuado, fortinho&foda, escolheram o nome por conta do verniz, como se os sufixos -ane, -ene e -ine denotassem estirpe e fossem muito comuns na literatura francesa do século XIX. A menina cresce idolatrando Xuxa e todos os Genéricos congêneres: Angélica e Eliana na versão infantil, Adriane Galisteu e Luciana Gimenez na versão adulta e Hebe Camargo e Ana Maria Braga na versão senil/esclerosada. Dá escândalo no shopping sempre que passa diante de uma vitrine e identifica o mais novo modelito de sandália assinado por qualquer uma de suas ídolas. A mãe, que não gosta de fazer feio nos almoços familiares de domingo, geralmente realizados na choperia do bairro, ao sabor de galeto de frango, tampouco resiste a comprar o acessório de plástico rosa (no cartão de crédito do marido) para embelezar a filha. No fim de semana, a felicidade vem em dobro: a mãe mostra que não só entende de moda como pode pagar por ela e a menina, fantasiada de boneca de luxo, interpreta, para os parentes e para as demais pessoas presentes no restaurante, a última canção de Ivete Sangalo. Do outro lado da mesa, a madrinha, orgulhosa, bate palmas e comemora, “parece uma atriz mirim!”. O toque pode representar a decadência mais prosaica e feliz. Caroline e Adriane e Mariane cumprirão seu destino e tornar-se-ão putas, senão de fato, pelo menos de espírito.

07 Abril 2009

bunda is back!


De fato, Bunda is back. O novo textículo ficou apenas um fim de semana no ar, e já tenho o prazer de degustar um comentário - breve, mas elogioso. Ora, todos gostamos de ser o centro das atenções. Em particular os bundões, que, se não se expõem ao ridículo, ao escárnio de todos, passam integralmente despercebidos, como aparelhos de TV em tardes de domingo. Bundões falam sozinhos, para as paredes. Prestar-lhes atenção é o mesmo que notar algo fora do lugar ou fora de sintonia. Saudações a todos que voltam a se aventurar neste buraco negro.

Passei o almoço de hoje em estado de autismo. Fui convidado pela minha chefe para sentar à mesa junto com funcionários de terceiro e quarto escalões do Ministério vizinho ao nosso e de uma das agências governamentais sediadas no Rio. Predominaram conversas relacionadas a processos burocráticos, ponderações acerca do papel do Estado como fomentador de micro e pequenas empresas e os habituais gracejos sobre a canalhice que corre solta nos Poderes Legislativo e Judiciário. Acompanhei esses tantos assuntos do mesmo bunker de onde degustava, com perplexidade e desconfiança, a comida natural que rendeu ao cardápio do restaurante o direito de ostentar preços, no mínimo, indecentes. Brasília é uma cidade no litoral do lago Paranoá - daí a mania carioca de saúde, magreza e pele cor de cenoura. Restaurantes naturais fazem bastante sucesso nesta praia. Prosperam. Fui incapaz de me engajar na conversação que se desenrolava diante de mim. Já experimentei sensação semelhante no teatro, ao assistir a peças que não me disseram nada ao espírito. Não é por falta de compreensão do que está sendo dito. Tem a ver com uma modalidade de tédio que não é bem tédio, mas completo desinteresse por aquilo que eu poderia dizer caso quisesse dizer algo. Melhor olhar através das palavras, decifrar os pensamentos e as neuroses que os dedos e os ombros das pessoas não sabem camuflar.
Escritores são retratados como autistas nos filmes porque escrever exige mesmo um bom bocado de autismo antes da labuta com a caneta e o teclado. Na vida real, porém, compartilhar refeição com alguém assim é disperdiçar uma hora e meia do dia na companhia de um completo babaca. Não se fazem mais literatos como na ficção de antigamente, apenas bundões e prepotentes orgulhosos.

Acordei do transe quando o garçom me abordou com a máquina do Visa e com a informação de que lhe devia 44 reais e 70 centavos, com serviço. Paguei no crédito para não ter que me deparar com trouxinhas de berinjela recheadas de
cream cheese (crim xisi) e tomate seco até o mês que vem.

04 Abril 2009

a volta do malandro


Nesta vida, o tempo passa rápido. Lá se vão dois anos desde o último textículo. A natureza, no entanto, é estática. Como rezam o ditado e a empolgante canção da ex-banda de Carla Perez: pau que nasce torto, nunca se endireita. Tornei-me servidor público; “alto funcionário” do Governo federal. Tenho um salário e uma rotina em Brasília. Burocrática, sem dúvida, mas enfim posso dar-me o luxo de ir ao supermercado e comprar queijo maasdam e vinho do Porto, dois caprichos que outrora me custavam o dinheiro que não tinha. Meus amigos agradecem imenso - finalmente tenho para custear a cerveja de quinta-feira. Aqueles que se diziam amigos não perdem a oportunidade de cobrar-me antigas dívidas que a verdadeira amizade teria tratado de prescrever. Que seja - quem não teme, não deve. A tão almejada estabilidade financeira, situação gozada apenas pelos definitivamente empregados - carteira assinada e dinheiro aplicado -, chegou. Todos os dias, saio de casa engravatado para o trabalho. Por baixo do terno e do orgulhoso aspecto típico dos recém admitidos diplomatas, misto de executivo prodígio com intelectual humanista, o bom e velho bundão. Como disse, a natureza das coisas e das pessoas não muda. Nem perdoa.


Acabo de regressar do primeiro ensaio daquele que virá a ser o mais irreverente bloco carnavalesco de Brasília. Os chegados da repartição tiveram a espirituosa idéia de lançar uma banda de sambas e marchinhas para tornar a idéia de estar condenado à Capital Federal para o resto da vida profissional menos insuportável. Produzimos um barulho terrível, mas bastante animado para uma tarde de sábado chuvosa. Unidos pela alegria e pela batucada, tomamos muita cerveja e comemos muito fandangos. A diversão pode ser simples como bater papo à varanda da casa, diante da piscina com cascata e do jardim meticulosamente aparado. Começo a entender o prazer de alguns em passar a tarde com os amigos da faculdade, diante da grelha em brasas e imerso no dialético debate sobre a santa trindade - mulheres, futebol e cachaça. Afinal, participar de uma banda de samba me torna mais um partícipe daquele abominável universo mental do playboy da Zona Oeste de São Paulo? A princípio, sim. O Rio de Janeiro, porém, há de redimir-me.


O Presidente do bloco, alcunhado “Eternos nesta Brasila” por conta de um vídeo que há muito circula no youtube e retrata um jovem ator global, astro de malhação, dizendo abobrinhas durante festa da high society brasiliense, enriquecida por meio de esquemas de grilagem e corrupção, é carioca. Cariocas também são os homens do tamborim, do pandeiro e do surdo. Ora, se Vinícius de Moraes chamou São Paulo de túmulo do samba não foi à toa. O samba nasceu com o Rio de Janeiro: a cidade é a pátria de todos os mestres desde Noel. O que seria do Bola Preta no fogo cruzado de motoboys da Avenida Paulista? O que seria da Banda de Ipanema na Marginal, desfilando loucura às margens do Rio Pinheiros? Quando um grupo de playboys paulistanos reúne-se com pretensões carnavalescas não se pode esperar mais do que uma solução trivial para cativar a atenção daquelas menininhas que se formaram no colégio junto com eles, mas ainda não foram fisgadas pelo anzol dourado do casamento perfeito. Aqui a coisa é distinta. Meu recente envolvimento com o tamborim explica-se pela empolgação coletiva e de sotaque inconfundível que marcou um almoço de sexta-feira há algumas semanas. Participar do bloco é quase um pressentimento, como tantos outros que vez ou outra perturbam meus pensamentos. Em fevereiro do ano que vem, espero celebrar meu último carnaval no Brasil antes de uma longa década de trabalho e reflexão no exílio. Que seja ao som do tamborim e entre bons amigos sambistas de verrrdade.

16 Março 2007

bunda in brasília


Hoje fiquei bem puto. O pagamento do seguro do meu carro atrasou, e fui escalado pra fazer uma vistoria prévia. Os endereços das oficinas que a Porto Seguro me mandou eram todos de cidades satélites, afinal, no Plano Piloto não há um setor automobilístico W3XPTO. Lá fui eu conhecer Guará numa linda tarde de sexta-feira. (A propósito, estou em Brasília.)

Custei pra achar a mecânica, cujo nome é realmente um capricho da função poética da linguagem: AdAUTO Coelho. Adivinhem o nome do dono! Pois ele não estava, e quem me atendeu foi o Fábio. O profissionalismo do rapaz, característica que torna os serviços paulistanos excepcionais e inexiste no Planalto Central, assim como em qualquer parte do Brasil fora do Sudeste, deixou-me contente. Expliquei a ele meu problema, e Fábio, sem titubear, apresentou-me a solução: "vistoria prévia, senhor, é só na própria Porto Seguro, que fica na Asa Norte".

Para quem não conhece Brasília, a cidade tem o desenho de um avião (ou de um passarinho, como queiram). Guará fica a uns quarenta minutos da saída sul, localizada na extremidade da asa sul. O escritório da Porto Seguro, por sua vez, localiza-se na asa norte, a direção, em palavras que apetecem aos pedantes da academia, DIAMETRALMENTE OPOSTA.

Agora, é só fazer as contas: 40 minutos para chegar a Guará, 30 minutos pra achar a AdAUTO Coelho, 20 minutos pra ser informado de que havia me fodido redondamente, 20 minutos pra encontrar a saída de Guará que leva a Brasília (curiosamente, a cidade só tem placas em uma das mãos da avenida; quem segue no sentido contrário está como cego em tiroteio), 40 minutos pra chegar a Brasília e 30 minutos no trânsito das 18 horas (levando em consideração que os segundos piores motoristas do Brasil são os candangos – os primeiros são os soteropolitanos – e que eu me perdi). A soma dá 180 minutos ou 3 horas.

Estou em um momento um tanto quanto delicado da vida. Meu tempo está valendo ouro. Perder a tarde rodando inutilmente debaixo do sol escaldante do cerrado significa pra mim enorme prejuízo. Além da gasolina, deixei de investir horas preciosas nos livros de Direito e Economia. Para agravar ainda mais o quadro, o mau humor com que cheguei em casa foi tamanho que não consegui me concentrar em outra coisa senão a perspectiva de encher a cara de cerveja mais à noite. O dia de estudos foi pro brejo.

Pensando bem, o que mais me emputeceu no dia de hoje não foi Guará nem a atendente da Porto Seguro que me mandou ir lá. Foi o Lúcio Costa. Esse filha da puta inventou a única cidade no mundo onde é possível se perder andando em círculos idênticos. Trata-se de um verdadeiro paradoxo. Como há poucos edifícios em Brasília e sua topografia é plana, o destino a que se quer chegar pode ser visto de praticamente qualquer ponto da cidade. A avenida que leva até ele é também visível. Porém, chegar é impossível. Brasília constitui um labirinto intransponível cuja saída, no entanto, é evidente. E nada no mundo pode provocar mais cólera do que sair de um lugar e retornar a ele indefinidamente. A paisagem que se repete parece querer enlouquecer o motorista, incutindo-lhe vertigens de ódio profundo; os pedestres, reconhecendo o mesmo automóvel passando uma, duas, três, quatro vezes, confirmam para si mesmos, “que perfeito bundão – ou é louco ou é idiota”. Viadutos, rotatórias, retornos – na capital federal, tudo leva ao mesmo ponto: o ponto de partida.

Dizia-se, na Antiguidade, que todos os caminhos levavam a Roma. Hoje, posso dizer quase o mesmo: todos os caminhos levam à puta que pariu Lúcio Costa.

13 Janeiro 2007

bobo


Na literatura, são denominadas personagens planos pois não possuem complexidade psicológica alguma. Têm sensibilidade emocional inferior à bauxita, minério de onde é extraído o alumínio, e inteligência questionável, não do ponto de vista do QI – pois em geral escolhem profissões exigentes como a medicina, a engenharia ou, mais comumente, o mercado financeiro –, mas no que se refere à sua incapacidade total para apreender a vida por meio da intuição. Há um trecho do livro Herói Devolvido em que Marcelo Mirisola escreve a respeito de Pepe: “Pepe não era retardado mental porque queria ficar rico e comprar um apartamento em Miami; Pepe era retardado mental porque tinha síndrome de Down”. As bestas às quais me refiro enquadram-se no primeiro caso. Sua doença é a bobeira aguda, agravada pela perspicácia com os números. São cegas para as coisas simples. Levam a sério filmes como “Guerra nas Estrelas”. Mas o pior mesmo é que podem pagar pela verdade, de modo que o desconcerto do mundo resume-se à alta da taxa de juros. Não existe nada mais perigoso para a Humanidade que a demência com milhões no bolso. Personagens planos não são mera fabulação literária. Existem na vida real. São fanáticos por futebol. São os donos da bola.

25 Novembro 2006

polaca


A Constituição de 1937, que inaugurou o Estado Novo, ganhou, à época, o curioso apelido de “polaca”. Uma penca de gente deve saber que a alcunha denunciava a ilegitimidade da carta magna. Getúlio Vargas foi ditador e “polaca” significava prostituta. Mas o que as pobres polonesas tinham a ver com o meretrício no Brasil? Tudo e nada.

Desde o início das imigrações européias, no século XIX, polonesas eram célebres no Rio de Janeiro pela beleza alva e, principalmente, pela didática ímpar com que ministravam aulas particulares de francês. A moda no Império era o Velho Mundo e, em particular, a França. Os refinados barões, marqueses e viscondes, apesar dos títulos tupiniquins, vestiam-se à parisiense e usavam corriqueiramente expressões importadas como “bon soir” e “la vie est une grande merde”.

O nacionalismo exacerbado desse período, em que a nação brasileira era ainda um incerto projeto político, tinha os olhos voltados para o exterior e os pés na cozinha. Além de bens materiais, importavam-se idéias, comportamentos e estéticas que, adaptadas às circunstâncias locais – clima tropical, escravidão e imundície –, traduziam-se em paradoxos tipicamente brasílicos. Defendia-se a liberdade como valor universal, por exemplo, ao mesmo tempo em que a ojeriza racial permeava todas as relações sociais, inclusive aquelas de caráter íntimo. Desejava-se a modernidade num país arcaico. Eis que cariocas disputavam até mesmo a bala a expertise das polonesas, conscientes de que o domínio do francês garantir-lhes-ia prestígio nos meios influentes da Corte. Mesmo os nacionalistas mais exaltados dedicaram-se a aprendê-lo, nesse caso, simplesmente para protestar contra a origem lusitana do português, língua de pés-de-chumbo.

Escolas de idiomas logo se espalharam pela capital. A mais famosa delas pertencia à “Barbada”, mulata que ostentava bigode espesso e cavanhaque e recitava sonetos de Shakespeare num idioma semelhante ao inglês. Um anúncio no Jornal do Commércio, de 1876, informa que o slogan dessa respeitada instituição, parafraseando Júlio Verne, dizia “Mafuá da Barbada – volta ao mundo em 180 minutos”. Apenas profissionais do sexo feminino, estrangeiras, asseadas, comunicativas e dispostas a ensinar aquilo que seus países de origem tinham de melhor faziam parte do corpo indecente, isto é, docente. O Mafuá oferecia cursos regulares de quimbundo, tupi, hebraico, espanhol e, disparado o mais concorrido, francês. As aulas, todas com duração de três horas e nem um minuto a mais, contavam com atividades práticas as quais proporcionavam aos alunos não só o aprendizado da língua, mas também dos costumes estrangeiros. Escravas alforriadas davam aula de quimbundo, índias aculturadas, de tupi, cristãs novas, de hebraico, paraguaias refugiadas da guerra, de espanhol, e as encantadoras polonesas, de francês.

Há quem afirme, muito provavelmente com razão, que a “febre do ménage (corruptela de homenagem, certamente à França)”, como ficou conhecida a famigerada endemia de sífilis crônica que castigou o Rio no verão de 1872, tenha-se originado nas dependências do empreendimento educacional da Barbada. De fato, o campus não era lá muito sofisticado: uma velha casa, com cinco alcovas mal iluminadas e um porão, cujo telhado cedia perigosamente (e afinal despencou no ano de 1880, matando a dona e destruindo para sempre tesouros culturais de incalculável valor), localizada no alegre arrebalde que viria a chamar-se Baixada Fluminense. A rotatividade ininterrupta de estudantes aliada à morbidade dos trópicos nos meses de janeiro e fevereiro roubou o sossego, senão a vida, de muitos cavalheiros aspirantes a poliglotas. Em ambientes fechados e úmidos bactérias proliferam-se como gemidos em baile de carnaval. O inocente espirro de algum aluno enfermo que se tenha recusado a manter-se em sua casa, de repouso, bastou para infectar multidões de admiradores das culturas estrangeiras e, indireta e conseqüentemente, suas esposas e os amantes destas. Como o pânico tende a generalizar-se com impressionante rapidez nas cidades, entre os homens, assim como nos galinheiros, entre as galinhas, a febre do ménage logo aterrorizou a sociedade carioca.

A capital do Império, que ainda não se tornara exemplo mundial de urbanização – não contava com sistemas de saneamento básico, de modo que o esgoto doméstico era despejado diretamente nas ruas estreitas ou então transportado em “tigres” (grandes jarros de cerâmica) até a praia mais próxima e, então, lançado ao mar –, registrou, naquele fatídico ano de 1872, o maior êxodo urbano de toda sua história. Livrar-se dos maus ares do Rio era costume muito comum durante o verão. Aqueles que possuíam meios dirigiam-se a Petrópolis, seguindo o exemplo de D. Pedro II e da família real. Aos desvalidos restava a alternativa de mudar de hábitos, saindo menos de casa e evitando as proximidades do porto, onde, dizia-se, as doenças pegavam com maior facilidade. Nada mais entediante (e emburrecedor), contudo, que a manutenção da saúde.

Atualmente, versa o ditado que macho que é macho faz qualquer coisa em nome da virilidade. No século XIX, quando o Brasil era um país irreconhecivelmente mais inteligente, vide o exemplo de Machado de Assis em contraposição a Paulo Coelho, o dito popular enunciava outra verdade mais edificante: culto que é culto sacrifica tudo menos o prazer da erudição. Apesar da sífilis crônica, a freqüentação do Mafuá da Barbada não caiu. Victor Hugo figurava em primeiro na lista dos best-sellers, e a intelectualidade da Baixada estava ávida para lê-lo no original. As professoras polonesas trabalhavam incessantemente, ministrando aulas de manhã, à tarde, à noite e até de madrugada.

A opinião pública condenou a continuidade das atividades do Mafuá. Em tempos de mortalidade elevada, o moralismo endurece. No ano de 1872, condenou até mesmo os mais sérios centros culturais do Império brasileiro. Jornais promoveram ampla campanha de difamação da Barbada e de suas professoras, além de defenderem a extinção de todas as escolas de idiomas cariocas. Panfletos de autoria anônima foram distribuídos nas ruas tachando lingüistas de “gajas diabólicas que vivem para espalhar o mal” e seus locais de trabalho de “antros de imundície e perversão”. As polacas foram alvo privilegiado do ódio popular, pois, uma vez que dominavam o francês e esse era o idioma da moda, supunha-se que mais pessoas haviam infectado com a temida febre do ménage. O vulgo passou a chamá-las de meretrizes, barranqueiras, gulosas e prostitutas, entre outras coisas vis. Como é usual no Brasil, iniciativas que visam a melhorar as condições de vida e educação da população nascem fadadas à falência.

A injustiça contra as polonesas foi assim imortalizada pela ignorância das massas, entorpecidas pela propaganda “civilista” empreendida pelos meios de comunicação conservadores que se proclamavam “guardiões da civilização e da justiça”. Polaca tornou-se sinônimo de puta. Hoje em dia, quase sessenta anos após a morte de Getúlio Vargas, definir o caráter das pessoas em função de sua nacionalidade é politicamente incorreto e constitui preconceito. Prostituta tornou-se categoria supranacional. Quanto à Constituição brasileira de 1988, apesar de democrática, ela é tão injusta quanto a de 1937. Garante aos cidadãos brasileiros o direito a uma vida digna. Mas como tornar essa garantia realidade num país de filhos da puta?

07 Novembro 2006

tocaia


Se alguém me acusar de homófobo, quero que se exploda. Veado gosta mesmo é de tocaia. É impressionante a mania que eles têm de embrenharem-se nos matos e nas moitas dos parques da cidade. São sorrateiros como ratazanas, safados como velhos esclerosados comedores do próprio esperma e dissimulados como toda bicha que se preza.

Na calada da noite, ficam ali, à toa, rondando o passeio público. Uns fingem que estão malhando, entusiasmados com a chegada do verão e, claro, com as proporções dos próprios bíceps, outros vacilam, encostados nos postes com cara de baiacu em coma ou dentro de seus automóveis, manuseando o canarinho afoito. Crescem o olho pra cima dos demais passantes como se também participassem da conspiração voluptuosa e imunda que passaram o dia a fantasiar. Acreditam que algo extraordinário pode acontecer. Nada lhes parece mais romântico que uma barrela na trilha: mãos no cascalho, joelhos na relva e rabicó em chamas; merda diluindo-se em sangue e suor enquanto a vítima do estupro consentido alivia-se.

Qualquer gesto involuntário um pouco mais brusco do pedestre incauto será interpretado como resposta afirmativa pelos pervertidos de plantão, como se fosse um código secreto. Em suas cabeças desmioladas, coçar o nariz ou enxugar a testa, por exemplo, equivalem às seguintes palavras de amor e doçura: “vem cá e me prova que você chupa até o caroço”. Qual será o fetiche de copular com estranhos no bosque? Trata-se de bucolismo vampiresco? Será que proporciona frio na barriga correr o risco de atracar-se com soros positivos? É o risco de ser visto que torna essa prática estimulante? Ou será a possibilidade de revisitar Sodoma e Gomorra em pleno parque do Ibirapuera ou Cidade Universitária, se, de repente, todo mundo resolver soltar o frango?

Não entendo mesmo o que se passa. Só sei que, mais de uma vez, tive de reprimir tipos assim durante minhas corridas noturnas. Guarda a piada, imbecil, e engole o sorriso. Tenho estudado o dia todo pra concluir (Deus esteja comigo) o curso de História. Só me sobra tempo pra fazer exercício tarde da noite. Enfim... Você, que insiste em contrariar o que digo, tentando forçar piadas totalmente sem graça a respeito da firmeza da minha predileção sexual, que vá pra puta que o(a) pariu. Não estou com paciência pra isso hoje. Se pudesse me ver, flagraria no meu semblante a mesma expressão de repúdio ameaçador que sou obrigado a vestir quando um desses veadinhos franco-atiradores resolve mirar-me por detrás do famigerado “sorriso mole”. Duas expressões em latim deverão iluminá-lo: mens sana in corpore sano e me cagus un caralium.

Não tenho absolutamente nada contra o homossexualismo, que fique claro. É de domínio público que o sangue da minha nobre linhagem é um verdadeiro bas fond, onde os genes femininos pululam como Marias sem vergonha em beira de brejo. Nem sempre há espaço pro Y no código genético dos meus parentes. Aliás, o mais comum é que esta seja a situação: X X X X X X X X y X X X. Porém, quando ele está presente, sai de baixo! O chumbo é grosso, colega! Dizem que meu tetra-tataravô Alfonso Pinheiro de Amorim Cortez, um dos capitães de Santo Amaro no tempo em que o bairro que conhecemos hoje superava em muito a população da provinciana São Paulo de Piratininga, tinha três testículos. Era tão macho, mas tão macho que, quando passeava pela vila, até mesmo o vento dobrava a esquina para não esbarrar nele. Quando a anomalia veio a ser conhecida de todos os respeitados cidadãos santo-amarenses, por meio de um escândalo envolvendo a negra Carmelita, dama de companhia de minha tetra-tataravó Iolanda, assassinada com dois balaços de arcabuz em circunstâncias até hoje obscuras, vovô Fonsinho fingia que não era com ele. Jamais permitiu que tocassem no assunto na sua frente – o português do armazém quase ficou caolho como Camões por conta de um gracejo infeliz –, mas sentia o mais profundo orgulho daquele respeito absoluto que impunha (e também de sua abastada pochete, é óbvio). Afagava-lhe a virilidade na mesma proporção em que me irritam os veadinhos atrevidos adoradores de Pã que povoam os parques à noite.

Alguém que possa oferecer-me explicações, por favor faça-o logo. Na USP, "as mocinhas" costumam aglomerar nas imediações do prédio da Física. Lá há um bosque onde as crianças inocentemente brincam nas manhãs de domingo. Não me surpreenderia nem um pouco se um dia uma menininha, lambuzando-se gulosamente, convidasse a mãe a compartilhar o chup-chup de leite condensado que achou perto do escorregador.

Essas coisas acontecem. Por isso, essa mania de putaria em parque deve acabar. É indecente, intimidador e imundo – isso soma três I’s: III, como CCC e KKK; por pouco, não corresponde também a SS. Mas deixo o totalitarismo e a violência para os imbecis. Quero mesmo é que se foda.